quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

ABRAHAM MASLOW


FADIMAN, James e FRAGER. Abraham Maslow e a psicologia transpessoal. In: Personalidade e Crescimento pessoal. Porto Alegre: Editora Artmed, 2004, 5ª edição

Na visão de Goldstein, todo organismo tem um impulso básico: “[O] organismo é governado pela tendência a realizar, tanto quanto possível, suas capacidades individuais, sua 'natureza' no mundo” (1939, p.196) p 388

Goldstein alegava que a liberação de tensão é um impulso forte, mas somente em organismos enfermos. Para um organismo saudável, o objetivo principal é “a formação de um certo nível de tensão, isto é, aquele que torna possível mais atividade ordenada” (1939, p. 195-196) p 388

Um impulso como a fome é um caso especial de auto-realização, em que se busca a redução de tensão para devolver o organismo à condição ideal para maior expressão de suas capacidades. Entretanto, somente em situação extrema esse impulso se torna opressor. P 388

...organismo auto-realizado saudável provoca esse choque por aventurar-se em novas situações a fim de utilizar suas capacidades. Para Goldstein (e também para Maslow), a auto-realização não livra o indivíduo de problemas ou dificuldades; pelo contrário, o crescimento pode trazer uma certa quantidade de dor e sofrimento. P 388

Maslow definia neurose e desajuste psicológico como doenças de deficiência; ou seja, elas são causadas pela privação de certas necessidades básicas, assim como a ausência de certas vitaminas causa doença. P 389

Viver no nível das necessidades superiores significa maior eficiência biológica, maior longevidade, menos enfermidade, melhor sono, apetite, etc. (Maslow, 1948) p 389

Segundo Maslow, necessidades mais básicas precisam ser satisfeitas antes que necessidades menos críticas sejam atendidas. P 389

Mais comumente, as pessoas auto-realizadas vêem a vida com clareza. Elas são menos emotivas e mais objetivas, menos tendentes a permitir que esperanças, medos ou defesas do ego distorçam suas observações. P 390

Um dos principais pontos de Maslow é que nós estamos sempre desejando alguma coisa e raramente alcançamos um estado de completa satisfação, sem metas ou desejos. Sua hierarquia de necessidades é uma tentativa de prever que tipos de desejos vão surgir quando os anteriores estiverem suficientemente satisfeitos e não dominarem mais o comportamento. P 390

Quando os queixosos se frustram por causa da imperfeição do mundo, da falta de justiça, e assim por diante, este é um sinal positivo, pois significa que, apesar de um alto grau de satisfação básica, as pessoas estão lutando por mais aperfeiçoamento e crescimento. P 391

A busca de satisfação das necessidades superiores é em si um indicador de saúde psicológica. Maslow afirma que a satisfação de necessidades superiores é intrinsecamente mais gratificante e que a metamotivação é uma indicação de que o indivíduo foi além do nível de funcionamento por deficiência
. P 398

ALFRED ADLER


FADIMAN, James e FRAGER Robert. Alfred Adler e a psicologia individual. In: Personalidade e Crescimento pessoal. Porto Alegre: Editora Artmed, 2004, 5ª edição

O argumento de Adler de que as metas e experiências têm maior influência sobre o comportamento do que as experiências passadas foi um dos maiores motivos de seu rompimento com Freud. P 120

Meta de superioridade, ou conquista de seu ambiente. Ele enfatizou tanto o efeito das influências sociais sobre o indivíduo quanto a importância do interesse social. P 120

Em contraste com a maioria das outras teorias psicológicas abordadas neste livro, a psicologia individual não é uma psicologia profunda; ou seja, ela não pressupõe forças e constructos intangíveis profundos na psique. Adler desenvolveu uma psicologia de contexto, em que o comportamento é compreendido em termos do ambiente físico e social. P 120

Adler, que via a sexualidade como expressão de nossa personalidade e não como motivador fundamental, se opôs à asserção da primazia da libido. Ele sugeriu um impulso fundamental diferente, o impulso do poder. P 122

Segundo Adler, as tentativas iniciais das crianças de se adaptarem a seu ambiente podem resultar em sua escolha de dominar os outros como meio de adquirir auto-estima e obter êxito. P 123

Na verdade, um órgão fraco pode se desenvolver a ponto de tornar-se a maior força da pessoa. P 125

As crianças são relativamente pequenas e indefesas no mundo dos adultos. Para as crianças, controlar seu próprio comportamento e libertar-se da dominação dos adultos é um interesse primordial. Desta perspectiva, o poder é visto como o primeiro bem; e a fraqueza, como primeiro mal. O esforço para obtenção do poder é a primeira compensação da criança para o senso de inferioridade. Sentimentos moderados de inferioridade podem motivar o indivíduo para realizações construtivas. P 124

Os sentimentos de inferioridade não são em si anormais. Eles são a causa de todas as melhorias na posição da humanidade (Adler, 1956, p. 177) P 125

O desejo de crescer, de tornar-se tão ou mais forte do que todos os outros, surge em sua alma (Adler, 1928, p. 34) p 125

Para Adler, praticamente todo progresso é o resultado de nossas tentativas de compensar sentimentos de inferioridade. P 125

Adler afirmava que as tendências agressivas nos humanos foram cruciais na sobrevivência individual e na da espécie. P 125

Não tenha medo de cometer erros, pois não existe outro jeito de aprender a viver! (Adler, em Bottone, 1957, p. 37) p 125

A formação de metas de vida começa na infância como compensação para os sentimentos de inferioridade, insegurança e desamparo em um mundo adulto. As metas de vida geralmente servem como defesa contra sentimentos de impotência, como uma ponte do presente insatisfatório para um futuro brilhante, poderoso e satisfatório. P 126

Estilo de vida é o modo especial escolhido por um indivíduo para perseguir sua meta de vida. P 127

Hábitos e traços de comportamento aparentemente isolados adquirem significado como elemento do estilo de vida e metas do indivíduo, e assim os problemas psicológicos e emocionais devem ser tratados dentro deste contexto. P 127

Adler enfatiza que é nossa concepção do mundo que determina o comportamento. P 127

A gente encontra o que planeja encontrar. (Adler, 1964b, p. 100) p 127

Cada indivíduo, segundo Adler, tem um centro onde é livre. Uma vez que somos livres, somos responsáveis por nossas ações e por nossa vidas. P 128

O comportamento se baseia em nossa percepção da realidade, não necessariamente na própria realidade. Para compreender o indivíduo, é preciso entender seu estilo de vida. P 130

A luta construtiva por superioridade, acrescida de forte interesse social e cooperação, é o traço básico do indivíduo. P 131

Os traços de crianças não amadas sua forma mais desenvolvida podem ser observados estudando-se as biografias de todos os grandes inimigos da humanidade. Aqui o que se destaca é que, quando crianças, eles desenvolveram dureza de caráter, inveja e ódio; eles não suportariam ver os outros felizes (Adler, 1956, p. 371) P 132

Quando os sentimentos de inferioridade predominam ou quando o interesse social é pouco desenvolvido, os indivíduos tendem a buscar superioridade pessoal, pois carecem de confiança em sua capacidade de funcionar efetivamente e de trabalhar construtivamente com os outros. Os ornamentos do sucesso, prestígio e estima tornam-se mais importantes do que as realizações concretas. “Eles se afastaram dos reais problemas da vida e estão envolvidos numa luta imaginária para renovar sua confiança em sua força” (Adler, 1956, p. 255) p 133

Só podemos ter êxito se estivermos genuinamente interessados no outro. Devemos ser capazes de ver com seus olhos e ouvir com seus ouvidos. (Adler, 1929, p. 340) p l35

Eu digo (aos pacientes): “Você pode se curar em duas semanas se seguir esta receita. Tente pensar todos os dias em como pode agradar alguém”. (Adler, 1956, p. 347) p 136

As principais contribuições de Adler à psicologia moderna são a importância de fatores não-sexuais no ambiente, o conceito de unidade da personalidade, o papel do poder e da agressividade no comportamento humano, e o conceito do complexo de inferioridade. P 138

MELANIE KLEIN - DONALD WINNICOTT - HEINZ KOHUT - FRITZ PERLS


FADIMAN, James e FRAGER Robert. Anna Freud e os pós-freudianos. In: Personalidade e Crescimento pessoal. Porto Alegre: Editora Artmed, 2004, 5ª edição.


DONALD WINNICOTT

Se o bebê deseja ser alimentado, e a mãe oferece o seio ou a mamadeira no momento certo; se o bebê sorri, e a mãe sorri de volta como validação; se o bebê fica úmido e chora, e a mãe responde trocando a fralda, então o bebê irá construir a noção de que suas expressões espontâneas são eficazes. P 71

Quando a onipotência do bebê é respeitada, desenvolve-se um verdadeiro self; entretanto, quando não se sente eficiente, a criança se sente desamparada e tende a se adaptar às necessidades da mãe a fim de obter o que deseja. Nesse caso, ela desenvolve um falso self. P 71

Ele viu que o relacionamento psicanalítico era uma repetição do primeiro relacionamento da criança – ou seja, com sua mãe. P 72

Era necessário, pensava ele, atender as necessidades do paciente, em vez de forçar o paciente a ajustar-se aos horários e necessidades do analista. Isso só iria reforçar um falso self no paciente. P 72

Acima de tudo, é a correspondência empática e satisfação das necessidades do verdadeiro self do paciente o objetivo durante a psicanálise. P 72

COSTA PINTO, Manoel da. D. W. Winnicott: o homem e a obra. In: O Livro de ouro da psicanálise. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007, 540 p.

Teoria do Desenvolvimento, com um estudo pormenorizado da relação mãe-filho e das influências da família e do ambiente, postulando a interação de processos inatos de maturação com a presença de um ambiente facilitador, desde uma fase de dependência absoluta à independência humana. P 399

Winnicott escreveu que não existe um bebê se não houver uma mãe e, conseqüentemente, não pode existir uma mãe sem um pai, ainda que no imaginário da mãe e referido, eventualmente, ao próprio pai da mãe. Considero que a mãe só poderá exercer a preocupação materna primária se houver um pai suficientemente bom. P 401

COSTA PINTO, Manoel da. Constituição do si-mesmo e transicionalidade. In: O Livro de ouro da psicanálise. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007, 540 p.

Foi o trabalho analítico com esses pacientes, (...) de aproximadamente 60 mil crianças e suas mães (ele veio da pediatria), que permitiu a Winnicott formular um estado de não-separação inicial mãe-bebê, na fase de dependência absoluta da criança em relação aos cuidados maternos. Do seu ponto de vista só nos tornamos pessoa em virtude da relação com ouyra pessoa, como é o caso da relação mãe-bebê nos primórdios da vida. P 406

...o ser só é possível com outro ser humano. Durante esta fase, a continuidade do ser é o sentimento que resulta da fusão da mãe suficientemente boa com o bebê. P 407

Quando ocorre um fracasso materno, temos as invasões que provocam reações por parte do bebê. [...]. Invasões intensas e reiteradas levam à sensação de aniquilação do self e defesas do tipo falso self que encapsulam o núcleo do verdadeiro self. O indivíduo se desenvolve, agora, a partir da casca defensiva, com referencial alheio ao seu ser. P 407

“Para mim, o self, que não é o ego, é a pessoa que eu sou, que é somente eu, que possui uma totalidade baseada na operação do processo maturativo. Ao mesmo tempo, o self tem partes e é, na verdade, constituído dessas partes. Tais partes se aglutinaram num sentido interior-exterior no curso do processo maturativo, auxiliado, como deve sê-lo (principalmente no início), pelo ambiente humano que o contém, que cuida dele e que de forma ativa o facilita. P 409-410


COSTA PINTO, Manoel da. A devotada e seu bebê. In: O Livro de ouro da psicanálise. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007, 540 p.

Quando o cuidado materno mostra-se confiável, a “continuidade da linha da vida” do bebê se mantém, e ele experimente uma “continuidade de ser”, pois os processos de desenvolvimento de seu ego não sofreram excessivas perturbações emocionais ou físicas. Essa é a “base do ego”. P 423

As invasões do meio ambiente por falhas da mãe confiável constituem um trauma, pois levam o bebê a reagir ao ambiente, antes de ter conseguido desenvolver mecanismos psíquicos que possibilitam tornar previsível, isto é, antes que o bebê possa ter condições de considerar o que é bom ou mau no ambiente, como projeção sua. [...]. Num estágio posterior, com o ego mais desenvolvido, a criança passa a ser capaz de sentir raiva devido à falha de adaptação ambiental... p 424

Caso o meio ambiente não adaptado persista, maiores e mais intensas serão as reações do bebê. A hiperatividade da mente não consegue mais compensar as invasões do mio ambiente, ocorrendo estados confusionais ou deficiência mental aparente (sem lesão orgânica). P 427

Com base nos trabalhos de Freud e Melanie Klein, Winnicott considerava que a morte ou desaparecimento da mãe coloca a criança à mercê do ódio e da ambivalência, por predomínio de elementos persecutórios, que enfraquecem as forças benignas e amorosas. P 432


HEINZ KOHUT

Ele reconheceu que nosso narcisismo inato é parte essencial do desenvolvimento do self e que os processos narcisistas são essenciais durante todo o nosso desenvolvimento. P 72

Ele descobriu que a escuta empática profunda, e não a interpretação, era a chave para a cura. Na verdade, a interpretação, a intervenção psicanalítica tradicional, para o desenvolvimento do ego, só piora as coisas para o self. P 73

Todos nós conhecemos pessoas que só conversam sobre si mesmas ou sobre suas experiências, sem dar importância aos pensamentos ou sentimentos dos outros. P 73

O primeiro espelhamento, em que o bebê olha para a mãe e vê o seu próprio self refletido no olhar de prazer dela. No relacionamento de espelhamento, é como se o bebê dissesse a si mesmo: “Você vê o maravilhoso eu. Logo, eu sei que sou maravilhoso”. P 73

O segundo processo narcisista normal é a idealização, que começa quando a criança reconhece o genitor ou outra pessoa especial. Aqui as qualidades internas de seu próprio self – bondade, perfeição, onipotência, significado, um sentimento de realidade, etc. – são projetadas sobre esta pessoa de modo que a criança poderia dizer: “Eu vejo e estou próximo ao maravilhoso você; logo, eu existo e sou maravilhoso também”. Tanto na relação objetal de espelhamento quanto na idealização, a criança conhece o seu self com o auxílio do outro. P 73

Kohut chamou estas pessoas do espelhamento e idealização de objetos-do-self (Kohut, 1977) porque a criança os sente como uma extensão de si mesma. P 73

O processo interno de espelhamento conduz a ambições realistas no mundo apoiadas pelo elogio encorajador internalizado da mãe. De modo semelhante, quando o pai idealizado foi internalizado, a criança pode esforçar-se por ideais realistas. Estes dois pólos constituem o núcleo de um self saudável e geram as ambições e ideais profundamente sentidos que fornecem um sentido de propósito e significado. P 73

Entretanto, se ambos falham, os sintomas com os quais Kohut está preocupado – sentir-se irreal, vazio e sem significado – sobrevirão, pois não existe estrutura interna de self que possa produzir sentimentos de valor próprio. P 73


FRITZ PERLS

Fritz Perls sugeriu que qualquer aspecto do comportamento de um indivíduo pode ser visto como uma manifestação do todo – o ser da pessoa (F. Perls, 1978). Na terapia, por exemplo, o que o paciente faz – como ele se movimenta, fala, e assim por diante – fornece tanta informação quanto o que ele pensa e diz. Nossos corpos são representações diretas de quem somos. Pela simples observação de nossos comportamentos físicos facilmente visíveis e de nossa postura – respiração, movimentos -, podemos aprender muitíssimo sobre nós mesmos. P 76

Os neuróticos são incapazes de viver no presente. Eles cronicamente carregam consigo “questões pendentes” do passado. Uma vez que sua atenção se concentra no que não está resolvido, eles não possuem consciência nem energia para lidar plenamente com o presente. P 76

Fritz Perls via os sonhos como mensagens sobre situações inacabadas, incluindo o que estamos perdendo em nossas vidas, o que estamos evitando fazer... P 79

MELANIE KLEIN

Klein aprofundou a descoberta de Freud de que a agressividade e o amor atuam como forças organizadoras fundamentais na psique. A agressão divide a mente, enquanto o amor a une. P 69

Nossas experiências com pessoas importantes, tais como nossos pais ou primeiros parceiros românticos, tornam-se interiorizadas e depois estruturam nossa experiência não apenas dos outros, mas também de nossa própria identidade. Por exemplo, quando “cindimos” o mundo em bom e mau, também dividimos o nosso sentido de “eu” em aspectos de temor e desejo. P 70



COSTA PINTO, Manoel da. Significado de Melanie Klein. In: O Livro de ouro da psicanálise. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007, 540 p.

Sua apreensão do mundo interno infantil e das formas por meio das quais as emoções ali adquirem significado contribuiu para o entendimento da personalidade adulta, com seus núcleos infantis incrustados que persistem por toda a vida. P 222

Klein considera que a estrutura arcaica das emoções infantis, muitas vezes datada de um período pré-verbal, persiste ao longo de nossas vidas e interfere na mente adulta. P 222

“Sentir os pais como se fossem pessoas vivas dentro de seu corpo da mesma maneira concreta que profundas fantasias inconscientes são vividas. Isto é, se esses pais 'internos' se amam, se vivem em harmonia, desse mundo interior brota, de forma viva, um princípio de ordenação que ajuda a transformar o caos interior em cosmos. Por outro lado, se estão em guerra, em litígio, o caos se adensa e se aprofunda.” P 223

A mãe, ou sua representação parcial como seio alimentador, se constitui nesse sentido no primeiro objeto interno do bebê, podendo adquirir qualidades boas ou más, conforme a função exercida. P 223

Quando esta mãe a satisfaz, atendendo-a, contendo sua ansiedade, ela é internalizada como objeto bom, capaz de compreendê-la, cuidar dela e se forma fonte de segurança. P 224

Não apenas o passado histórico e as repressões acumuladas durante a vida que se tornam parte de nossa subjetividade e a perturbam. Antes mesmo da formação do ego e do superego do bebê, já existiria uma força negativa (pulsão de morte) atuando, gerando defesas contra ansiedades iniciais, que vão, aos poucos, se corporificado em estruturas. P 224




COSTA PINTO, Manoel da. A açougueira inspirada: O Livro de ouro da psicanálise. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007, 540 p.

...pode-se afirmar que as noções de “objeto externo” e de ‘realidade externa”, para Klein, referem-se à realidade tal como é percebida pelo sujeito, com as influências maiores ou menores das fantasias inconscientes. P 304

Talvez seja necessário, para entender o pensamento Kleiniano, que nos situemos num mundo que uma vez já foi o nosso, mas que por “crescimento” tivemos de “esquecer”. Crescimento e esquecer entre aspas porque nem de fato crescemos a ponto de não mais habitarmos em parte aquele mundo nem o esquecemos a ponto de não o reconhecermos aqui e ali, principalmente em nossos momentos mais intensos de angústia, odeio, amor, destrutividade, paixão e violência. Trata-se de um mundo “antes do mundo”, do despedaçamento daquilo que na realidade ainda está por se constituir, do amor e do ódio como sensações, de um pré-pensamento antes do pensamento, do prazer e do sofrimento inomináveis. P 305

Há uma canção de Chico Buarque e Milton Nascimento que fala sobre aquilo “que não tem medida, nem nunca terá”, nossas onipotentes e desmedidas paixões – amor, ciúme, controle, posse, ambição, inveja, raiva -, com seu caráter indomável, ilimitado e insaciável: “que não tem governo, nem nunca terá”. É um mundo de desejos que disparam à nossa revelia e ameaçam ultrapassar-nos, transbordando. Diante da autonomia dos “quereres” inconscientes, vindos de outro lugar e que nos marginalizam em relação àquele nosso “eu” mais bem comportado... p 307

O infantil é uma dimensão fora do tempo, um fundo ameaçador, dada a imensidão de sua demanda. Idioma primitivo que ainda não aprendeu a falar (infans quer dizer “o que não fala”) , faz um apelo de acesso à figuração, quer se formular a todo custo, quer se revelar. Existe no mais inconsciente recesso, secreto, pulsante, em todos os processos psíquicos e em todas as idades. P 308
A pulsão de vida expressa o investimento de amor: conduz ao movimento de colocar libido e interesse nas pessoas e no mundo. Do outro lado, a pulsão de morte corresponde à tendência mortífera de narcisismo, isto é, o apagamento e a dissolução de si e da importância e significado das outras pessoas; é a tendência a desprezar os outros, a tornar-se indiferente, a anestesiar a sensibilidade e a percepção das emoções, a embrutecer-se e fechar-se. P 309

Tirar o valor das outras pessoas, desprezá-las, revela o medo de sofrer e, como se sabe, “quem desdenha, quer comprar”. O alvo para o qual se dirige a inveja é o bom, o belo, o admirável dom de um artista, por exemplo. A inveja quer a posse imaginária da criatividade, da aptidão que a outra pessoa tem para gerar, daquilo que há de mais secreto e singular em cada um.... p 310

É uma autora que nos convida a deixar de lado nossos preconceitos estéticos e a necessidade de uma bela teoria e fazermos com ela precisamente isto: um movimento de rebaixamento, (...). “Rebaixar consiste em aproximar da terra, entrar em comunhão com a terra concebida como um princípio de absorção e, ao mesmo tempo, de nascimento [...] significa entrar em comunhão com a vida da parte inferior do corpo, a do ventre e dos órgãos genitais, e portanto, com atos como o coito, a concepção, a gravidez, o parto, a absorção de alimentos e a satisfação das necessidades naturais. P 311




COSTA PINTO, Manoel da. A música da fala. In: O Livro de ouro da psicanálise. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007, 540 p.

...o ser humano nasce para um mundo de relações e, desde o início, quando se relaciona com alguém, nunca mais será o mesmo. A partir do momento em que ocorre uma experiência emocional, todo relacionamento implica uma modificação de todos que nelas estão presentes. P 320

O mecanismo da identificação projetiva está presente desde o nascimento e tem como base a fantasia de que certos aspectos do self estão situados fora dele, dentro do próprio objeto, de maneira que tenha a sensação de controlar o objeto desde dentro e que o projetor vivencie o objeto como parte dele mesmo. P 322

O desenvolvimento do ego ocorre mediante a introjeção de objetos que, quando integrados, são assimilados dentro do ego e sentidos como pertencentes a ele, sendo, em grande parte, também estruturado por esses objetos. P 322

Segundo a teoria Kleiniana, os fenômenos transferenciais são concebidos como externalização, no presente, do mundo interno. “Os neurótico já não são considerados seres que 'sofrem de reminiscências', mas pessoas que vivem no passado, representando pelas qualidades do presente imediato do mundo interno”, diz Meltzer. P 324

Ela descreveu o desenvolvimento do psiquismo como uma elaboração do conflito entre os impulsos de vida e de morte, com as pulsões de vida prevalecendo gradualmente sobre as destrutivas. Para ela, o conflito entre as pulsões de vida e pulsões de morte é o motor de todo o acontecer psíquico. P 327

Melanie Klein descreveu como os impulsos agressivos podem ser um instrumento para lidar com o desamparo que todo ser humano enfrenta no início da vida. P 328

Melanie Klein humanizou a psicanálise. Mostrou que é a emoção que dá significado e cor às experiências de vida. (...) os seres humanos vivem duas realidades, a externa e a interna, evidenciou quão necessário é o sentido da realidade psíquica, que seria a pessoa reconhecer e assumir responsabilidades pelos próprios impulsos e pelo estado de organização de sua mente. P 328

SIGMUND FREUD


FADIMAN, James e FRAGER Robert. Sigmund Freud e a Psicanálise. In: Personalidade e Crescimento pessoal. Porto Alegre: Editora Artmed, 2004, 5ª edição.

Os sintomas dos pacientes histéricos dependem de cenas marcantes, porém esquecidas de suas vidas (traumas) ... p 30

Ele afirmava que nada ocorre casualmente, muito menos os processos mentais. Existe uma causa, até múltiplas causas, para todo pensamento, sentimento, memória ou ação. Todo evento mental é ocasionado por intenção consciente ou inconsciente e é determinado pelos eventos que precederam. p 33

No inconsciente existem elementos instintuais, que nunca foram conscientes e que nunca são acessíveis à consciência. p 33

“Sabemos por experiência que os processos mentais inconscientes são em si 'atemporais'. Isso significa dizer, para começar, que eles não são cronologicamente organizados, o tempo não os altera em nada, e tampouco a idéia de tempo pode-lhes ser aplicada”. p 33-34

A suposição de que o corpo é a única fonte de toda a energia mental subjaz todo o pensamento de Freud. Ele ansiava pelo dia em que todos os fenômenos mentais pudessem ser explicados com referência direta à fisiologia cerebral (Sulloway, 1979). p 33

Pulsões são pressões para agir sem pensamento consciente para determinados fins. Estas pulsões são “a causa fundamental de toda atividade” (Freud, 1940, p 5). Freud chamava os aspectos mentais de “desejos”. Necessidades e desejos impelem as pessoas a agir. p 34

O alvo é reduzir a necessidade até que a ação não seja mais necessária, isto é, dar ao organismo a satisfação que agora deseja. A pressão é a quantidade de energia, força ou ímpeto utilizada para satisfazer ou gratificar a pulsão. p 34

Pulsões básicas. Freud elaborou duas descrições das pulsões básicas: (...) a sexual (...) e a agressiva ou destrutiva. p 34

O desejo sexual, por exemplo, pode ser aliviado através da atividade sexual, ou também assistindo a filmes eróticos, observando imagens, lendo sobre outras pessoas, fantasiando, comendo, bebendo – até mesmo se exercitando. p 34

Cada uma dessas pulsões generalizadas tem uma fonte distinta de energia. A libido (termo latino para desejo) é a energia disponível às pulsões de vida. p 35

A energia agressiva, ou pulsão de morte, não tem uma denominação especial. Supõe-se que ela tem as mesmas propriedades gerais da libido. p 35

Catexia é o processo pelo qual a energia libidinal disponível na psique é concentrada ou investida em pessoa, idéia ou coisa. A libido que foi catexiada não é mais móvel e não pode se deslocar para novos objetos. p 35

Os conteúdos do Id são quase totalmente inconscientes. Eles incluem pensamentos primitivos que jamais foram conscientes e pensamentos que foram negados, considerados inaceitáveis à consciência. Segundo Freud, experiências que foram negadas ou reprimidas ainda possuem a capacidade de afetar o comportamento da pessoa com a mesma intensidade, sem estarem sujeitas ao controle inconsciente. p 36

O ego é a parte da psique que está em contato com a realidade externa. p 36

O superego desenvolve, aperfeiçoa e mantém o código moral de um indivíduo. “O superego de uma criança, na verdade, se constrói sobre o modelo, não de seus pais, mas do superego de seus pais; os conteúdos que o preenchem são os mesmos, e isso torna-se o veículo da tradição (...), as quais se propagaram dessa forma de geração para geração” (1993, p 39). Portanto, a criança aprende não apenas os reais limites em qualquer situação, mas também as visões morais dos pais. p 37

O objetivo primordial da psique é manter – e quando necessário, recuperar – um nível aceitável de equilíbrio dinâmico que maximize o prazer da redução de tensão. A energia que é utilizada se origina no id impulsivo primitivo. O ego existe para lidar realisticamente com as pulsões básicas do id. Ele também intermedeia as demandas do id, as restrições do superego e a realidade externa. p 37

Os sonhos são um equilíbrio parcial, tanto física quanto psicologicamente, entre anseios instintuais e limitações da vida real. Sonhar é um modo de canalizar desejos insatisfeitos, através da consciência, sem despertar o corpo físico. P 43

Quase todos os sonhos podem ser compreendidos como a realização de um desejo. O sonho é uma rota alternativa para satisfazer os desejos do id. P 43

Para o id, não importa se a satisfação ocorre na realidade física sensória ou na realidade onírica interna imaginária. Em ambos os casos, energias são descarregadas. P 43

“Na maioria dos modelos americanos nativos, não existe separação distinta entre o mundo sonhado e o mundo vivido (...)” (Krippner e Thompson, 1996). P 44

As interações e os relacionamentos adultos são grandemente influenciados pelas primeiras experiências da infância. As primeiras relações, aquelas que ocorrem dentro da família nuclear, são freqüentemente definidoras. Todos os relacionamentos posteriores são influenciados pelos modos como essas primeiras relações se formaram e se mantiveram. Os modelos básicos entre criança e mãe, criança e pai e criança e irmão são os protótipos segundo os quais os contatos subseqüentes são inconscientemente avaliados. Os relacionamentos posteriores são, até certo ponto, recapitulações das dinâmicas, tensões e gratificações que ocorrem na família de origem. P 45

Repetidas vezes representamos a dinâmica iniciada em nossos lares, freqüentemente escolhendo como parceiros pessoas que reinvocam em nós aspectos não-resolvidos de nossas primeiras necessidades. P 45

Nossas escolhas de ida – de amores, amigos, chefes, até de nossos inimigos – são derivados dos laços entre pais e filhos. P 45

Os relacionamentos são construídos sobre uma base de efeitos residuais das intensas experiências iniciais. Os encontros amorosos de adolescentes, jovens adultos e adultos, bem como os padrões de amizade e casamento, são, em parte, uma reelaboração de questões infantis não resolvidas. P 46

O que Freud desvelou, em uma era que havia venerado a razão e negado o valor o poder da emoção, foi que não somos animais predominantemente racionais, mas somos conduzidos por forças emocionais poderosas, cuja gênese muitas vezes é inconsciente. As emoções são as vias de liberação da tensão e apreciação do prazer. P 46

Respostas emocionais fortes podem, na verdade, encobrir um trauma de infância. P 46

Muitas de suas idéias, tais como a importância dos sonhos e a vitalidade dos processos inconscientes, são amplamente aceitas. P 49

Aqueles que optam por estudar a mente ou tentam compreender os outros seres humanos devem fazer as pazes com as idéias básicas de Freud através de um exame de sua própria experiência interior. P 50

Freud sugere que todo comportamento está vinculado, que não existem acidentes psicológicos – que sua escolha de pessoas, lugares, alimentos e diversões provém de experiências das quais você ou não se recorda ou não irá se recordar. Todo pensamento e todo comportamento possui significado. P 50

...sua lembrança ou sua versão de seu próprio passado contém pistas de como você se comporta e de quem você é. P 50















KAREN HORNEY


FADIMAN, James e FRAGER Robert. Karen Horney e a psicanálise humanística. In: Personalidade e Crescimento pessoal. Porto Alegre: Editora Artmed, 2004, 5ª edição

Horney via a característica central da neurose como alienação do eu real por causa de forças opressivas no ambiente. P 153

Outra diferença importante entre Horney e Freud é que, enquanto para Freud as experiências decisivas da infância são relativamente poucas e em sua maioria de natureza sexual, para Horney o somatório das experiências da infância é responsável pelo desenvolvimento neurótico. As coisas dão errado em função de todos os eventos e indivíduos na cultura, nas relações com os pares e especialmente na família, que fazem a criança se sentir insegura, desamada e sem valor e que dão origem à ansiedade básica. P 153

Horney via a característica central da neurose como alienação do eu real por causa de forças opressivas no ambiente. P 153

As pessoas podem se realizar de diferentes maneiras sob diferentes condições, mas existem certas condições na infância de que todos necessitam para a auto-realização. Estas incluem “uma atmosfera de afetuosidade”. P 153-154

Quando suas próprias neuroses impedem os pais de amar a criança ou até de pensar “nela como o indivíduo particular que ela é”, a criança desenvolve um sentimento de ansiedade básica que a impede “de relacionar-se com os outros com a espontaneidade de seus sentimentos reais”, forçando-a a desenvolver estratégias defensivas (1950, p. 18) p 154

Segundo Horney, os indivíduos tentam lidar com sua ansiedade básica adotando uma solução de conformidade ou submissão, aproximando-se das pessoas, adotando uma solução agressiva ou expansiva, indo contra as pessoas, ou tornando-se indiferentes ou resignadas, afastando-se das pessoas. As pessoas saudáveis se conduzem de maneira apropriada e flexível em todas as três direções, mas no desenvolvimento neurótico estes movimentos se tornam compulsivos e indiscriminados. P 154

É a solução no qual o alheamento é a solução predominante (...). Eles lidam com um mundo ameaçador afastando-se de seu poder e excluindo os outros de suas vidas interiores. Para evitarem ser dependentes do ambiente, tentam subjugar seus anseios interiores e contentar-se com pouco.(...). Seu acordo é que se não pedirem nada aos outros, estes não os pertubarão; se não tentarem nada, não irão falhar; se esperarem pouco da vida, não irão se decepcionar. P 156

A neurose é uma perturbação não apenas de nossos relacionamentos com os outros, mas também de nosso relacionamento com nós mesmos. P 159

A libertação do eu real do vaivém do sistema de orgulho é, sugiro, um triunfo do comum (...). Simplesmente sendo ela mesma com todas as suas capacidades e falhas, uma pessoa compreende que não precisa ser extraordinária para ter valor. (Westkott, 1986, p. 211) p 159

A esperança de Horney é que os pacientes “sintam-se solidários” consigo mesmos e experimentem a si mesmos “como não sendo particularmente maravilhosos ou desprezíveis, mas como seres humanos lutadores e muitas vezes atormentados” que são (1950, p. 359) p 159

Os terapeutas podem ajudar seus pacientes a formular e esclarecer informações, mas os pacientes devem fornecê-las revelando-se a si mesmos. P 161

Para Horney, o objetivo da terapia é ajudar os pacientes a abandonarem suas defesas, aceitarem-se como são, e substituírem sua busca de glória por uma luta de auto-realização. P 161

Em The feminist legacy of Karen Horney (1986), Marcia Westkott explorou as implicações da teoria madura de Horney para a psicologia feminina, com capítulos sobre sexualização e desvalorização das mulheres e a dependência, cólera e alheamento que sentem como conseqüência. (...) “um contexto histórico em que as mulheres são menos valorizadas do que os homens” (WestKott, 1986, p. 2). Ela sugeriu que estes traços são reações defensivas à subordinação, desvalorização e impotência e que, por mais que pareçam indesejáveis do ponto de vista social, são desfavoráveis à auto-realização das mulheres. P 164

Horney duvidava que a infância pudesse ser acuradamente recuperada, uma vez que necessariamente a reconstruímos da perspectiva de nossas necessidades, crenças e defesas presentes. P 165

Ódio de si próprio. A raiva que o eu idealizado sente em relação ao eu que realmente somos por este não ser o que “deveria” ser. P 168

ERIK ERIKSON


FADIMAN, James e FRAGER Robert. Erik Erikson e o ciclo de vida. In: Personalidade e Crescimento pessoal. Porto Alegre: Editora Artmed, 2004, 5ª edição

O modelo dos estágios de desenvolvimento humano de Erkson – modelo por ele denominado epigenético – é a primeira teoria psicológica a descrever o ciclo de vida humano da infância à idade adulta e velhice. P 199

Epigênese sugere que cada elemento se desenvolve sobre as outras partes (epi significa “sobre” e gênese significa “surgimento”). P 199

O aparecimento de cada estágio sucessivo baseia-se no desenvolvimento do estágio anterior. P 199

Cada estágio se caracteriza por uma tarefa de desenvolvimento específica, ou crise, que deve ser resolvida para que o indivíduo avance para o estágio seguinte. As virtudes e capacidades desenvolvidas através da bem-sucedida resolução em cada estágio afetam toda a personalidade. Elas podem ser influenciadas por eventos posteriores ou anteriores. Entretanto, estas capacidades psicológicas geralmente são afetadas mais fortemente durante o estágio em que aparecem. P 199

Cada estágio é uma crise de aprendizagem, permitindo a realização de novas habilidades e atitudes. A crise pode não parecer dramática ou crítica; muitas vezes a pessoa só consegue ver posteriormente que um importante ponto de virada foi alcançado e ultrapassado. P 199

Erikson assinalou que a resolução bem-sucedida da crise em cada estágio de desenvolvimento humano promove uma certa virtude psicossocial. A palavra virtude é utilizada em seu sentido antigo, como na virtude de um medicamento. P 199

Os bebês controlam e criam os pais tanto quanto são controlados por eles (Erikson, 1963, p. 69) p 199

Quando os bebês começam a vida, eles desenvolvem um relativo senso de confiança e desconfiança no mundo a sua volta. Crucial para este equilíbrio entre segurança e insegurança é a experiência do bebê com a mãe. P 200

O senso de confiança se desenvolve não tanto com o alívio da fome ou com demonstração de amor mas com a qualidade da atenção materna. P 201
Um senso de autonomia se desenvolve com o senso de livre escolha. Ele é promovido pelo sentimento de ser capaz de escolher o que guardar e o que rejeitar. P 201

A nova liberdade e a afirmação de poder da criança quase inevitavelmente criam ansiedade. A criança desenvolve uma consciência, uma atitude parental que favorece a auto-observação, o autogoverno, e a punição de si própria. Neste estágio, a criança pode fazer mais do que nunca e precisa aprender a definir limites. P 202

O adulto já foi uma criança e um jovem. Ele jamais os será novamente; mas ele tampouco ficará sem a herança destas condições pregressas. (Erikson, 1987, p. 332) p 203

Quando termina a infância, os adolescentes entram neste estágio (...). Eles questionam os modelos de papel e as identificações da infância e experimentam novos paéis. A grande pergunta deste estágio é “Quem sou eu?”. Desenvolve-se um novo senso de identidade do ego. P 203

Dúvidas quanto à atratividade sexual e identidade sexual também são comuns. A incapacidade de “segurar” e desenvolver um sentimento de identidade com um indivíduo ou modelo de papel cultural que ofereça inspiração e orientação pode provocar um período de atrapalhação e insegurança. Outra reação comum é a identificação excessiva (ao ponto de aparentemente perder a identidade) com heróis da cultura jovem ou com líderes de grupos fechados. A pessoa muitas vezes sente-se isolada, vazia, ansiosa ou indecisa. Com a pressão para tomar importantes decisões de vida, o adolescente sente-se incapaz de tomá-las e até resiste a isso. P 204

Intimidade versus isolamento. Este estágio geralmente ocorre no início da idade adulta. É a época de adquirir um senso de independência dos pais e da escola, de estabelecer amizades e relacionamentos íntimos e de desenvolver a noção de responsabilidade adulta. P 204

Somente depois de termos estabelecido um senso relativamente estável de identidade é que podemos desenvolver um relacionamento próximo e significativo com outra pessoa. P 204

Integridade versus desespero. O estágio final da vida chega com a velhice. (...). Se não adquirimos uma medida de auto-aceitação, tendemos a mergulhar no desespero com o sentimento de que o tempo é curto- curto demais para recomeçar. Aqueles que terminam em desespero podem ficar amargurados com o que poderia ter sido, constantemente lamentando-se. P 205

A virtude da sabedoria se desenvolve a partir dos encontros tanto com a integridade quanto com o desespero, à medida que o indivíduo é confrontado com preocupações fundamentais. (...). A sabedoria mantém a integridade do conhecimento e experiência que o indivíduo acumulou. P 206

WILHELM REICH


FADIMAN, James e FRAGER Robert. Wilhelm Reich e a psicologia somática. In: Personalidade e Crescimento pessoal. Porto Alegre: Editora Artmed, 2004, 5ª edição

Couraça do caráter. Reich achava que a estrutura de caráter se forma como defesa contra a ansiedade da criança em torno de sensações sexuais intensas e o medo de punição que as acompanha. P 226

As defesas de caráter são difíceis de erradicar porque são racionalizadas pelo indivíduo e sentidas como parte de seu auto-conceito. P 227

A couraça é o principal obstáculo para o crescimento, segundo Reich. P 231

O organismo encouraçado é incapaz de destruir sua própria couraça. Mas ele é incapaz de expressar suas emoções biológicas elementares. (...). O indivíduo encouraçado não consegue expressar um suspiro de prazer ou conscientemente imitá-lo. Quando ele tenta fazê-lo, o resultado é um gemido, um urro contido e suprimido, ou até um impulso para vomitar. Ele é incapaz de dar vazão à raiva ou de bater o punho para imitar cólera. P 231

Outro obstáculo para o crescimento é a repressão social e cultural dos impulsos naturais e da sexualidade do indivíduo. A repressão, afirmou Reich, é a maior fonte de neurose... p 231

Na visão de Reich, os relacionamentos sociais são determinados pelo caráter do indivíduo. A maioria das pessoas vêem o mundo através do filtro de sua couraça, o que as isola tanto de suas naturezas interiores quanto de relacionamentos sociais satisfatórios. Somente pessoas de caráter genital, por terem perdido sua couraça rígida, podem reagir aberta e honestamente aos outros. P 232

Natureza e cultura, instinto e moralidade, sexualidade e realização tornam-se incompatíveis como fruto da cisão na estrutura humana. A unidade e congruência entre cultura e natureza, trabalho e amor, moralidade e sexualidade, almejada desde os mais remotos tempos, continuará sendo um sonho enquanto o homem continuar condenando a necessidade biológica de gratificação sexual (orgástica) natural. P 232

Ele definia caráter quase exclusivamente em termos de couraça. “O caráter atua para produzir uma resistência (...). Para ele [Reich], o caráter é uma couraça que se forma através do endurecimento crônico do ego. O significado e propósito desta couraça é a proteção de ameaças internas e externas” (Sterba, 1976, p. 278) p 234

ANA FREUD


FADIMAN, James e FRAGER Robert. Anna Freud e os pós-freudianos. In: Personalidade e Crescimento pessoal. Porto Alegre: Editora Artmed, 2004, 5ª edição.

Defesas utilizadas com consciência e auto-compreensão tornam a vida mais tolerável e mais bem-sucedida. P 63

“À medida que a criança se torna ciente da excitação sexual que não pode ser satisfeita, as 'excitações' sexuais evocam forças mentais contrárias que, a fim de suprimir este desprazer com eficácia, erigem as represas mentais de repulsa, vergonha e moralidade” (S. Freud, 1905, p 178). Não apenas a idéia original é reprimida, mas qualquer vergonha ou auto-reprovação que poderia surgir pela admissão destes pensamentos também é excluída da consciência. P 65

A ânsia que está sendo negada precisa ser repetidamente obscurecida. P 65

O ato de atribuir a outra pessoa , animal ou objeto as qualidades, sentimentos ou intenções que se originam em nós mesmos se chama projeção. É um mecanismo de defesa em que aspectos de nossa própria personalidade são deslocados de dentro do indivíduo para o ambiente externo. A ameaça é tratada é tratada como se fosse uma força externa. P 66

Sublimação é o processo mediante o qual a energia originalmente dirigida a metas sexuais ou agressivas é redirigida a novos objetivos – com freqüência artísticos, intelectuais ou culturais. A sublimação foi chamada de “defesa bem sucedida” (Fenichel, 1945). P 66

A civilização estimula a transcendência de impulsos originais e, em alguns casos, cria metas alternativas que podem ser mais satisfatórias para o id do que a satisfação dos impulsos originais. P 67

As defesas aqui descritas são modos que a psique dispõe de se proteger da tensão interna ou exterior. P 67

Os adolescentes (...). Eles formam as relações amorosas mais apaixonadas, mas as rompem tão abruptamente quanto as iniciaram. Por um lado, lançam-se entusiasmadamente à vida da comunidade e, por outro, possuem um anseio irressistível de solidão. Oscilam entre a cega submissão a algum líder de sua escolha e a rebeldia desafiadora contra toda e qualquer autoridade. São egoístas e materialistas e, ao mesmo tempo, repletos de elevado idealismo. São ascéticos, mas subitamente podem mergulhar em prazeres instintuais do caráter mais primitivo. P 81

CARL ROGERS


FADIMAN, James e FRAGER Robert. Carl Rogers e a perspectiva centrada na pessoa. In: Personalidade e Crescimento pessoal. Porto Alegre: Editora Artmed, 2004, 5ª edição

A premissa básica de Rogers é a de que as realidades das pessoas são assuntos pessoais e só podem ser conhecidas pelos próprios indivíduos. P 359

Existe um campo da experiência peculiar a cada indivíduo; esse campo contém “tudo o que está acontecendo dentro do envoltório do organismo em qualquer momento e está potencialmente disponível à consciência. P 359

Nossa atenção, ainda que teoricamente aberta à qualquer experiência, se concentra em preocupações imediatas para exclusão de quase tudo o mais. Quando estamos como fome, nosso campo da experiência é completamente preenchido por pensamentos sobre comida. P 359

Da noção de fluidez, Rogers formulou a crença de que as pessoas não apenas são capazes de crescimento e desenvolvimento pessoal, mas que essa mudança positiva é uma progressão natural e esperada. O self ou conceito-de-self, então, é o entendimento que uma pessoa tem de si mesma, baseado na experiência passada, nos dados presentes e nas expectativas futuras. P 359

A self ideal é “o autoconceito que o indivíduo mais gostaria de possuir, sobre o qual atribui o maior valor para si mesmo” (Rogers, 1959, p. 200). O self ideal é um modelo pelo qual uma pessoa pode se esforçar. Como o self, ele é uma estrutura mutante, constantemente sofrendo redefinição. P 359

O self ideal pode se tornar um obstáculo para a saúde pessoal quando ele difere muito do self real. As pessoas que sofrem dessa discrepância muitas vezes não estão dispostas a ver a diferença entre ideais e atos. P 360

Rogers conclui que em cada um de nós existe um impulso natural para sermos o mais competentes e capazes que biologicamente pudermos ser. Assim como uma planta cresce para se tornar uma planta saudável, e uma semente contém de si o impulso para tornar-se uma árvore, também uma pessoa é compelida a tornar-se uma pessoa inteira, completa e auto-realizada. P 360

A suposição de que o crescimento é possível e central para o propósito do organismo, é crucial no pensamento de Rogers. P 361

Para Rogers, a tendência para a auto-realização não é simplesmente outro motivo entre muitos; ela é o impulso primordialmente motivacional. P 361

Esta, a nosso ver, é a alienação básica no homem. Ele não foi fiel a si mesmo, sua valorização organísmica natural da experiência, mas, em nome da preservação da consideração positiva dos outros, passou a falsificar alguns dos valores que experimenta e a percebê-los apenas em termos de seu valor para os outros. Contudo, essa não foi uma escolha consciente, mas um desenvolvimento natural – e trágico – no início da infância. (1959, p. 226) p 365

Rogers observou que o comportamento psicótico muitas vezes parece estar ocorrendo a partir de um aspecto anteriormente negado da experiência do indivíduo. P 365

A terapia centrada no cliente se esforça para estabelecer uma atmosfera em que as condições prejudiciais de valor possam ser postas de lado, permitindo assim que as forças de saúde, que Rogers considera naturais, retomem seu domínio original. P 365

Os relacionamentos são necessários para descobrir o self. Rogers acredita que os relacionamentos capacitam o indivíduo a diretamente descobrir, desvelar, experimentar ou confrontar seu self real. Nossas personalidades tornam-se visíveis a nós sobretudo através do relacionamento com os outros. Em terapia, em situações de encontro e nas interações diárias, o feedback dos outros nos oferece oportunidades de nos experimentarmos. P 366

Inúmeros problemas decorrem da tentativa de realizar as expectativas dos outros em vez das nossas. “Viveremos por nossas escolhas, com os entendimentos organísmicos mais profundos de que somos capazes, mas não seremos moldados pelos desejos, regras, papéis que os outros estão ansiosos a nos fazer aceitar” (1972, p. 260) p 367

Talvez eu possa descobrir e chegar mais perto do que realmente sou no mais íntimo – às vezes sentindo-me zangado ou apavorado, às vezes amoroso e afetivo, de vez em quando bonito e forte ou impetuoso e terrível – sem esconder esses sentimentos de mim mesmo. Talvez eu possa avaliar-me como a pessoa altamente variada que sou. Talvez eu possa ser mais abertamente essa pessoa. Neste caso, posso viver de acordo com meus próprios valores adquiridos por experiência, ainda que tenha consciência de todos os códigos da sociedade. Então eu posso me permitir ser toda esta complexidade de sentimentos e significado e valores com meu parceiro – ser livre o suficiente para dar o amor, a cólera e a ternura que existem em mim. Possivelmente então eu possa ser um verdadeiro integrante de uma parceria, porque estou no caminho para ser uma pessoa de verdade. P 367

Rogers considera que é melhor que as pessoas decidam o que fazer por si mesmas, com apoio dos outros, do que fazerem o que os outros decidem por elas. P 368

Uma característica final é confiar em nossos impulsos interiores e juízos intuitivos, ... p 369

“A pessoa que oferece mais esperança em nosso mundo louco de hoje, que poderia ser liquidado, é o indivíduo que está mais plenamente cônscio – mais plenamente consciente do que está acontecendo dentro de si” (Rogers, em Kirsschenbaum e Henderson, 1989, p.189) p 370

Sua abordagem baseava-se no impulso do indivíduo para o crescimento, saúde e adaptação. A terapia era um modo de libertar o cliente para retomar seu desenvolvimento normal. Ela enfatizava o sentimento mais do que o intelecto, a situação imediata de vida mais do que o passado. P
370

WILLIAM JAMES


FADIMAN, James e FRAGER Robert. William James e a psicologia da consciência. In: Personalidade e Crescimento pessoal. Porto Alegre: Editora Artmed, 2004, 5ª edição

Para James, a personalidade emerge do contínuo intercâmbio dos instintos, hábitos e escolhas pessoais. P 251

Mudanças na consciência. Nunca podemos ter exatamente o mesmo pensamento duas vezes. Nossa consciência pode repetidamente deparar-se com a visão de um determinado objeto, com o som de uma qualidade específica, ou com o sabor de um determinado alimento, mas nosso modo de perceber estas sensações é diferente a cada encontro. P 254

Muitas vezes nós mesmos ficamos impressionados com as estranhas diferenças em nosso modo de ver a mesma coisa sucessivas vezes. Perguntamo-nos como pudemos emitir uma determinada opinião no mês passado sobre um certo assunto [...]. De um ano para o outro, vemos as coisas à nova luz. O que era irreal tornou-se real, e o que era emocionante ficou sem graça. Os amigos que valiam tanto se reduzem a sombras; as mulheres, uma vez tão divinas, as estrelas, as florestas e as águas, como podem agora ser tão enfadonhas e comuns; [...] p 254

Na consciência, o fluxo é contínuo. P 255

“Minha experiência é aquilo que aceito tomar em consideração. Somente aqueles elementos que eu percebo moldam minha mente; sem interesse seletivo, a experiência é um caos absoluto. Somente o interesse dá acento e ênfase, luz e sombra, primeiro plano e fundo – perspectiva inteligível, em suma” (1890, vol 1, p. 402) p 256

Por que uma pessoa aceita uma idéia ou teoria e rejeita outra? James sugere que isso é em parte uma decisão emocional; aceitamos uma [idéia ou teoria] porque ela nos permite compreender os fatos de um modo emocionalmente mais satisfatório. P 257

Os hábitos são uma faceta da aquisição de habilidades. Por outro lado, “o hábito diminui a atenção consciente com a qual nossos atos são realizados” (1890, vol 1, p. 114) p 257

Ações habituais são aquelas que fazemos com mínima consciência; os padrões de hábito impedem novo aprendizado. P 258

Seja sistematicamente heróico em pequenas coisas desnecessárias, faça algo todo dia só pela dificuldade, de modo que, quando a hora de terrível necessidade chegar, você não esteja abatido e destreinado para suportar o teste. P 258

Por exemplo, quando ele abordava a relação do um com o todo, ele dizia que a maior contribuição que cada indivíduo poderia dar à comunidade mais ampla era a de fazer o máximo possível para realizar seu potencial pessoal. P 260

Emoções. (...). James diz que percebemos uma situação em que ocorre uma reação física instintual, e depois tomamos consciência de uma emoção (por exemplo, tristeza, alegria, surpresa). A emoção se baseia no reconhecimento dos sentimentos físicos, e não da situação inicial. P 260

Nossa emoções baseiam em nossas reações físicas e em nossa percepção da situação, não apenas em nossas sensações físicas. P 261
Desapego às emoções. James era da opinião de que equilíbrio entre desprendimento e expressão de sentimentos é o melhor para o organismo. P 261-262

“Idéias verdadeiras são aquelas que podemos assimilar, validar, corroborar e comprovar. P 262

Temos a cabeça cheia de conceitos abstratos, palavrórios e verbosidade [...]. As peculiares fontes de alegria ligadas a nossas funções mais simples muitas vezes se esgotam, e nos tornamos completamente cegos e insensíveis às coisas boas e às alegrias mais elementares e gerais da vida. (1899ª, p. 126) p 263

A responsabilidade fundamental do professor é incentivar o aluno a aumentar sua capacidade de manter a atenção. Manter a atenção em um único assunto ou idéia não é um estado natural para crianças ou adultos. P 265

Para auxiliar os professores, James oferece algumas sugestões. Primeiro, deve-se fazer com que o conteúdo da educação tenha, ou pareça ter, relação com as necessidades dos alunos. Os alunos devem ter consciência das ligações entre o que estão aprendendo e suas próprias necessidades. P 265

Em segundo lugar, talvez seja necessário enriquecer o assunto a fim de estimular o retorno da atenção dos alunos, pois “a atenção inevitavelmente se desvia de um assunto que não muda” (1899, p. 52) p 265

Na esfera do pensamento, o que eu creio ser verdadeiro é verdadeiro ou torna-se verdadeiro. P 271

Para compreender seu comportamento atual, investigar como os indivíduos percebem o universo pode ser tão vantajoso quanto investigar suas experiências de infância. P 273

Hoje, existem amplas evidências experimentais para sugerir que algumas pessoas parecem ter mais do que uma personalidade; isto significa dizer que elas têm dentro de si muitas personalidades, cada uma com seu próprio nome, depósito de memórias e modo de pensar e se comportar. Até a idade e o gênero podem ser diferentes entre as personalidades. Casos extremos têm sido integralmente relatados pelas “próprias” pessoas (Casey, 1991; Chase, 1987) p 275

A multiplicidade pode não ser absolutamente uma patologia, mas uma característica ligada à sobrevivência, um modo de funcionar com êxito em condições extremas. P 275

LACAN

COSTA PINTO, Manoel da. A música da fala. In: O Livro de ouro da psicanálise. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007, 540 p.

...o ser humano nasce para um mundo de relações e, desde o início, quando se relaciona com alguém, nunca mais será o mesmo. A partir do momento em que ocorre uma experiência emocional, todo relacionamento implica uma modificação de todos que nelas estão presentes. P 320

O mecanismo da identificação projetiva está presente desde o nascimento e tem como base a fantasia de que certos aspectos do self estão situados fora dele, dentro do próprio objeto, de maneira que tenha a sensação de controlar o objeto desde dentro e que o projetor vivencie o objeto como parte dele mesmo. P 322

O desenvolvimento do ego ocorre mediante a introjeção de objetos que, quando integrados, são assimilados dentro do ego e sentidos como pertencentes a ele, sendo, em grande parte, também estruturado por esses objetos. P 322

Segundo a teoria Kleiniana, os fenômenos transferenciais são concebidos como externalização, no presente, do mundo interno. “Os neurótico já não são considerados seres que 'sofrem de reminiscências', mas pessoas que vivem no passado, representando pelas qualidades do presente imediato do mundo interno”, diz Meltzer. P 324

Ela descreveu o desenvolvimento do psiquismo como uma elaboração do conflito entre os impulsos de vida e de morte, com as pulsões de vida prevalecendo gradualmente sobre as destrutivas. Para ela, o conflito entre as pulsões de vida e pulsões de morte é o motor de todo o acontecer psíquico. P 327

Melanie Klein descreveu como os impulsos agressivos podem ser um instrumento para lidar com o desamparo que todo ser humano enfrenta no início da vida. P 328

Melanie Klein humanizou a psicanálise. Mostrou que é a emoção que dá significado e cor às experiências de vida. (...) os seres humanos vivem duas realidades, a externa e a interna, evidenciou quão necessário é o sentido da realidade psíquica, que seria a pessoa reconhecer e assumir responsabilidades pelos próprios impulsos e pelo estado de organização de sua mente. P 328


COSTA PINTO, Manoel da. A estrutura do psiquismo. In: O Livro de ouro da psicanálise. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007, 540 p.

O homem não se relaciona sempre com alguém de sexo oposto; ele não visa necessariamente o prazer sexual sem sofrimento; a sexualidade não precisa se expressar por meio dos genitais, mas pode ser praticada por meio de outras partes do corpo, adornos ou adereços; seu início não ocorre numa idade ou situação predeterminada; a sexualidade sequer tem de ocorrer na relação ou na presença de um outro ser humano, podendo se dar com animais, objetos ou mesmo com o próprio corpo e imaginação. P 335


É em nome desses desvios que Freud falou em pulsão sexual (sempre variável, portanto exercida de formas parciais) e não em instinto (padrão de comportamento próprio de cada espécie animal). A libido é o que penetra, percorre e marca o corpo, sinalizando-o pela premência de ser satisfeito. P 335

O desejo é sempre de outra coisa, que não complementa a imagem e não satisfaz as pulsões – o desejo pressupõe a falta. P 336

...as palavras de certo modo substituem e mantêm um tanto distante o inevitável horror que o limite da vida reserva a cada um. São elas que tornam simbolicamente suportável o vazio inevitável da falta, isto é, são elas que tentam fixar a pulsão a um representante, dando-lhe direção. P 338

...na sua fala, tropeça numa palavra, ou a troca por outra sem perceber, ou utiliza uma expressão que, por ter mais de um significado, produz no interlocutor uma impressão diferente da que tentara transmitir, eis aí o inconsciente em ação. P 347

A linguagem é a condição do inconsciente. O inconsciente é o discurso do Outro. O desejo do homem é o desejo do Outro. P 347

O século XX acabou e, na alvorada do terceiro milênio, o inconsciente se encontra sob fogo cruzado, atacado pelo capitalismo predatório, o mal-estar na cultura, a sociedade depressiva, as religiões totalitárias, o consumismo gozoso e o discurso da ciência, mais cego do que nunca. Lacan disse, alguma vez, que a psicanálise era um sintoma da civilização e que chegaria um dia em que essa última se curaria dela. Paranóia ou profecia ? p 349

COSTA PINTO, Manoel da. A psicose como paradigma. In: O Livro de ouro da psicanálise. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007, 540 p.

O pós-moderno se mostra na desestruturação dos saberes estabelecidos, no anonimato do modo de vida atual, produzindo laços sociais desarrumados e uma individuação extremada. P 350

O sujeito, vivendo em uma civilização condicionada pelo discurso da ciência e pela globalização do capitalismo, marcado pela ausência de ideais, corresponde ao fenômeno moderno da desaparição dos valores. Só há uma coisa que vale: a lei do mercado. O mestre contemporâneo é o mercado. P 351

Neste contexto, pode-se falar num sintoma moderno no qual o sujeito procura sua completude no consumo de objetos. P 352

Prescrever remédios ou promover o acesso a uma verdade é a causa do sofrimento? Pergunta que aponta para uma ética – porém não uma ética dos filósofos, mas uma ética da psicanálise, sugerida por Lacan nos seguintes termos: “Uma ética se anuncia, convertida ao silêncio pelo advento não do pavor, mas do desejo.” (Escritos) p 352

...para Lacan (como para os gregos), a loucura e todo o conhecimento humano também teriam origem no que é exterior ao sujeito; porém, no caso da visão que Lacan tinha dela, à diferença dos gregos, este exterior não seria constituído pela vontade dos deuses, mas seria o que é exterior ao conhecimento que o sujeito tem de si mesmo, numa referência ao inconsciente. P 355

O fenômeno da loucura é inseparável da subjetividade, “através do qual penso mostra-lhes que ela faz o ser mesmo do homem”. [...]. E o ser do homem não somente não poderia ser compreendido sem a loucura, como não seria do homem se, em si, não trouxesse a loucura como o limite da liberdade.” P 357

O louco é o verdaeiro homem livre, pois não precisa de outro, não precisa do semelhante para buscar a causa de seu desejo. P 359

O caso Aimée – investigado por Lacan na sua tese em psiquiatria com o rótulo de paranóia – consistia numa loucura de amor mortal por uma atriz de teatro que era como ela queria ser. Amor então por si mesma, amor pelo ideal que a atriz representava e que, ao mesmo tempo, marcava o que ela, Aimée, não era. [...]. A diferença que faz esta loucura ser adjetivada paranóica estaria no fato de ela procurar esta completude de si no corpo do Outro destruído, fazendo disto signo de união do seu próprio corpo. O paranóico precisa de sua vítima, testemunha p 359

BASTOS, Alice Beatriz B. Izique. A construção da pessoa em Wallon e a constituição do sujeito em Lacan. Petrópolis: Editora Vozes, 2003, 152p

(sobre o pensamento de Lacan) ....A razão de ser da constituição passa a ser procurada nas relações do sujeito consigo mesmo, do sujeito como um outro, dele com sua exterioridade. A atividade diante do espelho toma um sentido de uma pesquisa de si feita pela própria criança. (...). É por meio da imagem que o sujeito vai se constituir. P 93

(para Lacan) .... A criança não projeta no espelho a sua imagem, e o que ela vai introjetar é a imagem que a própria família construiu para ela. Com isso quero dizer que o que vai ser determinante na imagem especular é o seu caráter ilusório, falso, contornado pelos desejos e ideais alheios. É essa identidade alienante que marcará o psiquismo da criança, na medida em que ela vai ocupar o lugar do desejo dos pais e ao introjetar a imagem especular, ela passa a assumi-la como se fosse sua. P 103

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Penso que a psicanálise pode subsidiar a Educação, ampliando a visão do educador sobre os processos psíquicos, alertando-o para uma nova e revolucionária dimensão do sujeito humano, que é o inconsciente, o lugar no qual se produz um sentido mesmo sem sabê-lo. P 119

Uma situação bem comum nas escolas é aquela em que as crianças buscam repetidas vezes sair da sala para fazer xixi, como uma forma de escapar da monotonia das atividades e buscar prazer em outra coisa. Os professores, por sua vez, constatam o fato mas não admitem, e nem sequer tentam compreender, o que acontece na sala de aula que faz com que as crianças queiram sair a toda hora. P 120

Os adultos tentam interpretar as ações das crianças e tecem para elas uma série de expectativas e desejos. As crianças, por outro lado, jogam com essas imagens e acabam ficando capturadas por elas, acreditando que são o que os pais, os educadores, pensam sobre elas. P 120

Os educadores acreditam que, por terem um conhecimento teórico sobre as crianças, é possível conhecê-las e saber como pensam. Isso é um engano, pois cada criança tem sua singularidade própria, um jeito diferente de lidar com esse jogo de expectativas e de desejos. É por este motivo que é fundamental resgatar a palavra da criança, para possibilitar que ela venha a ser mais sujeito do que objeto. P 121

Lacan critica a Pedagogia e a Psicologia, pois acreditam no saber completo e total, no saber universal, diferente da Psicanálise, que reconhece que o saber é incompleto e que é tecido a partir da linguagem e da fala. P 121

Tanto a família como os educadores “jogam” suas expectativas em cima das crianças, que precisam ter chance de escapar desse aprisionamento, ou mesmo da classificação dos estágios de desenvolvimento, para assim poderem ter uma fala própria. P 121

A mesma criança “boazinha” precisa ter espaço para poder ser diferente, expressar um desagrado pela professora ou pela atividade sem deixar de ser reconhecida, mas em um lugar diferenciado. Ou mesmo o aluno que sempre faz bagunça, atrapalha os colegas, não se concentra, precisa ser ouvido, ter novas oportunidades para agir e se expressar de forma diferente, e não ficar rotulado como “o aluno chato que só atrapalha”. P 121-122

É importante demarcar que o educador deve respeitar as escolhas das crianças sobre suas ações, sobre as parcerias que procura estabelecer, ou não; e até pelo seu silêncio, que não deixa de ser uma forma de expressão. As interações são fundamentais, mas é necessário que a criança possa optar por ficar sozinha e desenvolver suas próprias ações, observações, ou um distanciamento momentâneo dos outros. P 123

B. F. SKINNER


FADIMAN, James e FRAGER Robert. B. F. Skinner e o behaviorismo radical. In: Personalidade e Crescimento pessoal. Porto Alegre: Editora Artmed, 2004, 5ª edição

Em 1938, Skinner publicou The behavior of organisms, no qual descrevia suas próprias experiências na modificação do comportamento de animais em condições laboratoriais. P 287

A idéia de que os estudos com animais poderiam elucidar o comportamento humano surgiu como um resultado indireto da pesquisa de Darwin e o subseqüente desenvolvimento das teorias evolucionistas. Muitos psicólogos, inclusive Skinner, supunham que os humanos não são diferentes dos outros animais. P 289

Do ponto de vista behaviorista, a psicologia é um ramo inteiramente objetivo da ciência natural. Seu objetivo é a previsão e o controle do comportamento. P 289

O fisiologista russo Ivan Pavlov (1849-1936) realizou o primeiro trabalho importante na área do condicionamento comportamental (1927). Sua pesquisa demonstrou que funções autônomas poderiam ser condicionadas. Ele mostrou que a salivação pode ser evocada por um estímulo que não seja o alimento, como, por exemplo, pelo som de uma campainha. P 289-290

Uma resposta individual se baseia nas experiências anteriores e na história genética. P 291

Liberdade. Skinner sugere que o sentimento de liberdade não é realmente liberdade; mais ainda, acredita que as formas mais repressivas de controle são aquelas que reforçam o sentimento de liberdade, tais como a “liberdade” dos eleitores de escolher os candidatos cujas posições são extremamente semelhantes. P 292

O homem autônomo. O homem autônomo é uma ficção explanatória descrita por Skinner como um agente interno, uma pessoa interior, que é controlada por vagas forças internas independentes das conexões comportamentais. P 292

Vontade. Skinner considera a noção de vontade confusa e irrealista. Para ele, vontade, livre arbítrio, e força de vontade não passam de ficções explanatórias. P 293

Davison e Valins (1969, p. 33) demonstraram que “se uma pessoa entende que uma mudança em seu comportamento depende totalmente de recompensas ou punição externa, (...). p 293

Skinner é polêmico não tanto por sua visão de que o homem é uma máquina muito superior, mas por suas opiniões sobre o que opera essa máquina [...]. Skinner rejeita toda a bagagem da consciência, todos os sentimentos, todos os motivos e todas as intenções como, na melhor das hipóteses, subprodutos. (Cohen, 1977) p 293

O condicionamento pode ocorrer e realmente ocorre sem percepção consciente. Numerosas demonstrações indicam que o que percebemos depende, em grande medida, de nossas percepções passadas, que foram parcialmente condicionadas. P 294

Reforço. Um reforço é qualquer estímulo que segue a ocorrência de uma resposta e aumenta a probabilidade daquela resposta. P 295

Crescimento para Skinner significa a capacidade de minimizar as condições adversas e aumentar o controle benéfico de nosso ambiente. Pelo esclarecimento de nosso pensamento, podemos fazer melhor uso das ferramentas disponíveis para prever, manter e controlar nosso próprio comportamento. P 297

Ignorância. Skinner define ignorância como falta de conhecimento sobre o que causa um dado comportamento. O primeiro passo na superação da ignorância é reconhecê-la; o segundo é mudar os comportamentos que mantiveram a ignorância. P 297

Descrições precisas do comportamento nos ajudam a fazer previsões precisas de futuros comportamentos e aperfeiçoar a análise dos reforços que levaram ao comportamento. O comportamento não é aleatório nem arbitrário, e sim um processo proposital que pode ser descrito considerando-se o ambiente em que o comportamento está inserido. P 298

Skinner conclui que, embora a punição possa ser usada brevemente para suprimir um comportamento, é altamente indesejável ou poderia causar danos ou morte. Uma abordagem mais útil é estabelecer uma situação em que um comportamento novo, concorrente e mais benéfico, pode ser aprendido e reforçado. P 299

Em uma conversa, você diz alguma coisa, e então você recebe um retorno. O retorno que você recebe, contudo, se baseia não apenas no que você disse, mas também em como a outra pessoa se comportou depois de ouvi-lo. P 300

Não é o que aconteceu a você que importa, e sim se você recebeu uma recompensa para perceber. P 302

Da posição do behaviorista, o objetivo da terapia deve ser modificar o formato ou ordem dos comportamentos – ou seja, impedir a reincidência que comportamentos indesejáveis ocorram com mais freqüência. P 302

GEORGE KELLY


FADIMAN, James e FRAGER. George Kelly e a psicologia do construto pessoal. In: Personalidade e Crescimento pessoal. Porto Alegre: Editora Artmed, 2004, 5ª edição

A teoria do construto pessoal aborda a compreensão dos outros pela tentativa de entrar em seu mundo. P 325

A teoria do construto pessoal permite que toda pessoa forneça o conteúdo de sua vida... p 325

A sólida posição de Kelly na psicologia humanística é adquirida por meio de sua formulação central de que as pessoas são sempre capazes de reinventar a si mesmas. Para Kelly, a realidade é flexível; existe convite, criatividade e renovação. P 328

A realidade não é tão dura quanto pensamos depois que encontramos maneiras de liberá-la um pouco. As pessoas podem reinterpretar a realidade. (...). Kelly propõe uma concepção das pessoas em constante processo de mudança... p 328

Nas palavras de Kelly: “Os homens mudam as coisas primeiro mudando a si mesmos e só atingem seus objetivos se pagarem o preço de mudarem a si mesmos. P 330

...o próprio mundo está “em processo”. Ele está constantemente mudando, de modo que uma compreensão adequada do mundo requer uma contínua reinterpretação dele. P 331

Uma compreensão adequada requer mudança constante. P 331

Considera-se que a pessoa está sempre em transformação e dirigindo-se em determinada direção. P 332

A cada momento a pessoa é entendida como um sistema de algum tamanho mais ou menos definido. Contudo, isso não informa nada, necessariamente, sobre o que a pessoa é capaz de vir a ser no futuro. P 332

Na verdade, os sistemas de construto orientam-se em direção ao futuro. A pessoa é vista em sua antecipação do que virá depois – toma o que aconteceu antes e usa o momento presente para alcançar a compreensão do que irá acontecer no próximo momento, dia ou ano. P 332

O processo envolve a antecipação de eventos de tal forma que se obtém alguma previsão em relação a como as coisas são e que forma deveriam tomar... p 332

A pessoa atenta para os temas conhecidos que se repetem e depois utiliza isso para compreender a natureza do mundo à medida que avança para o futuro. P 332

...a pessoa é psicologicamente compreendida através de seu próprio conjunto de construtos pessoais, que estão continuamente em movimento. Tanto a pessoa quanto seu ambiente são vistos como em perpétuo movimento e transformação. Para a pessoa que é vista “em processo” contínuo, o problema de importância psicológica é entender a direção que ele toma. P 333

A escolha é feita na direção que, na visão da pessoa, oferece mais possibilidade de crescimento e desenvolvimento total de seu sistema de construto. P 334

A escolha é feita na direção em que a pessoa vê suas maiores possibilidades. (...). A escolha é uma decisão pessoal que é o passo inicial para a pessoa ter algum impacto no mundo. Esse sentimento reflete as seguintes afirmações: “o homem toma decisões que inicialmente afetam a si próprio e que afetam os outros objetos somente depois – e mesmo assim, somente se ele consegue agir de modo eficaz [...]. p 334

É suficiente simplesmente apontar para o fato de que a pessoa deve antecipar os eventos e depois investir-se de maneira pessoal para que o sistema progrida. P 335

A psicologia do construto pessoal afirma explicitamente que nossas construções do mundo determinam nossas experiências com o mundo. Uma implicação concreta dessa afirmação é que, na medida em que as pessoas interpretam a si mesmas (ou a seus problemas) como imutáveis, as perspectivas de crescimento terapêutico são limitadas. P 346

Em anos mais recentes, o trabalho de Kelly tem sido mais prontamente associado ao construtivismo, uma série de abordagens psicológicas que enfatizam o papel central que os seres humanos desempenham na construção e vivência de acordo com seus significados psicológicos pessoais. P 348

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

A DIVERSIDADE DA PSICOLOGIA: uma construção teórica.


KAHHALE, Edna M. Peters. A diversidade da Psicologia: uma construção teórica. São Paulo: Editora Cortez, 2002, 304 p

Entendemos que o homem se constitui historicamente enquanto homem porque se constitui em sociedade transformando a natureza para produção de sua existência. Neste processo produz bens materiais e espirituais, ou seja, produz objetos e idéias O conjunto de idéias produzidas inclui crenças, valores e conhecimento de toda ordem que refletem a realidade de um determinado momento histórico, ou seja, o pressuposto é de que a origem das idéias produzidas socialmente está na base material da sociedade. P 13

Ao desenvolver tal análise, refletiu-se sobre quais concepções epistemológicas poderiam estar implicadas nas diferentes linhas teóricas da Psicologia: idealismo versus materialismo e metafísica versus dialética. A concepção idealista concebe a existência do homem e do mundo a partir, e com preponderância, da idéia, do Pensar, sobre a matéria, ou Ser, concebendo que a idéia determina a existência e que as leis que regem o mundo são as leis do pensamento. A concepção materialista concebe a primazia do Ser, matéria, sobre o Pensar, idéia , postulando serem as relações materiais que constroem a realidade e o homem, ou seja, que a matéria determina a existência, estando esta e o mundo subordinados às leis da matéria. A concepção metafísica de pensar postula a existência de uma essência imutável, sendo que só é possível conhecer a aparência dos fenômenos e não sua essência, uma vez que esta não é acessível aos recursos que o homem dispõe para produzir conhecimento. Assim, as transformações ocorrem apenas na aparência através de mudanças lineares. (...). A concepção dialética de pensar afirma que o movimento e a transformação são a essência dos fenômenos, os quais possuem uma contradição interna, que os leva a mudanças qualitativas e quantitativas e que ocorre por saltos, complexificando cada vez mais os fenômenos; a verdade é absoluta e relativa, pois corresponde ao real num determinado momento histórico, mas se transforma ao longo do tempo. P 14

As novas forças produtivas e relações de produção no modo de reprodução capitalista são resultado do desenvolvimento do modo de produção feudal, isto é, o sistema feudal vai gerando contradições internas que o inviabilizam como sistema produtivo. P 18

A indústria moderna é incompatível com as relações feudais de produção porque exige necessariamente o atrelamento da produção do campo à produção industrial, pois o campo fornece a matéria-prima à indústria; tem necessidade de um amplo mercado interno, que permita a distribuição de mercadorias e o recrutamento de trabalhadores, neste sentido “trabalhadores livres”; exige a especialização da mão-de-obra, ... p 18

...em busca de um conhecimento cada vez mais aprofundado da realidade; ou seja, de um conhecimento que responda cada vez mais satisfatória às necessidades trazidas pelo desenvolvimento histórico das sociedades humanas. Nesse sentido, tais necessidades decorrem, em primeiro lugar, das modificações operadas na produção de bens materiais. (...). Em segundo lugar, a reestruturação social e política, requerida pela nova organização da produção, tem implícita um debate ideológico: a visão de mundo do regime feudal deve ser combatida em todos os aspectos. P 26

O ponto central dessa nova produção de conhecimento tem sido chamado de “o aparecimento da ciência moderna”, que é identificado com a retomada e o grande desenvolvimento das ciências naturais – física, química, biologia, astronomia – e com a preocupação em sistematizar um método científico de conhecimento. P 26-27

Mas, se essa produção da ciência moderna for considerada na sua relação com pressupostos filosóficos e epistemológicos, vê-se que ela está imbricada com as mudanças na concepção de mundo, de homem e de conhecimento que representam o surgimento do novo homem e da nova sociedade, sob as condições do modo de produção capitalista. P 27

No centro do debate realizado no período está a crítica ao idealismo presente na religião e nas explicações sobre o homem e a realidade, a partir da teologia e da fé, já que a Igreja era a instituição responsável pela ideologia dominante do período anterior. O debate se concretizava de maneira marcante na busca de um novo método de conhecimento. P 28

...As explicações sobre o real prescindiam de observação dos fatos da realidade e só eram aceitos se admitissem ou não se chocassem com os dogmas religiosos. Esse conhecimento filosófico tinha como área mais desenvolvida a Metafísica, que, a partir dos pressupostos oficialmente aceitos, preocupava-se em explicar a finalidade do universo, sua causa primeira. P 28

Esse conhecimento não respondia às necessidades de desenvolvimento das forças produtivas do novo modo de produção, cujas necessidades só seriam atendidas se fosse possível lidar com o real de uma forma nova, por meio da criação de uma nova ciência, com método próprio, independente da filosofia e da metafísica. P 28

Assim, a ciência seria formada por raciocínios onde as conclusões (necessariamente corretas) eram decorrência de encadeamentos lógicos de premissas que via dedutiva demonstrariam as conclusões. A ciência era construída, antes de tudo, pela via da demonstração, garantida pela aplicação rigorosa de raciocínios lógicos formais (Andery, Micheletto e Sério, 1996). P 29

...o sistema aristotélico é questionamento quanto à lógica, que embasava não só o conhecimento, mas também a maneira pela qual se produzia esse conhecimento. Até então, tudo era “certeza”. Nesse momento instituiu-se a dúvida e, para superá-la, só um novo método de conhecimento. Essa discussão inicia-se com Bacon e Descartes. P 30

Bacon elabora o método indutivo, aliando a observação ao raciocínio, ou seja, partindo-se dos fatos concretos, tais como se dão na experiência, ascende-se às formas gerais que constituem suas leis e causas. P 31

...Descartes (...). Co o desenvolvimento do método dedutivo, ele coloca a razão humana em primeiro plano e a possibilidade de se conhecer as leis do Universo. P 32

A crítica ao sistema aristotélico levou, até o momento, a duas possíveis respostas sobre um método de conhecimento, que embasam, a partir daí, duas vertentes: a partir de Bacon a preocupação com a experimentação – empirismo –e, a partir de Descartes, o conhecimento pela razão e fundamentado nas leis da matemática – racionalismo. P 33

John Locke (1632-1704) (...). Locke questiona a razão como fonte de conhecimento. Para ele, não há idéias inatas; todas as idéias provêm da experiência. A fim de fundamentar essa colocação, Locke apresenta como fontes das idéias a sensação e a reflexão, ou seja, as experiências possíveis são aquelas que, através dos sentidos, transmitem as qualidades do objeto à mente e aquelas que ocorrem no interior da própria mente, através do reconhecimento das operações que esta realiza. P 34
A alma, para Locke, é, no momento do nascimento, uma “tabula rasa”, que será povoada de idéias vindas todas da experiência. Para ele, partindo dos dados da experiência, o entendimento distingue, compara e combina, e esta é a origem das idéias que julgamos inatas. P 34

O conhecimento, para Locke, é possível através do estabelecimento de vínculos entre os vários tipos de idéia. Fundamentalmente, para se chegar à verdade, deve-se estabelecer a conveniência das idéias entre si e das idéias em relação à realidade. P 35

Berkeley nega que os objetos tenham qualidades próprias e independentes do homem que os percebe. Todas as qualidades dos objetos são a eles atribuídas pelas sensações. Por exemplo, vemos um objeto vermelho e temos a ilusão de que o objeto é vermelho, tem essa propriedade. Na verdade, um animal, que vê cores de uma outra forma, ou um daltônico, não veriam o objeto vermelho. Assim, o vermelho, bem como todas as outras qualidades do objeto, não estão nele, e sim nas sensações que o percebem. O conceito de existência, de Ser, para Berkeley, é, portanto, subordinado à percepção do sujeito que sente. Um objeto é “sentido” por um conjunto de sensações, dos vários níveis que o delimitam. P 36

A discussão de David Hume (1711-1776) se dá de outra forma, embora, também, ele tenha como ponto de partida o empirismo. Para Hume, o conhecimento vem da experiência, os sentidos fornecem impressões sobre os objetos. As idéias formam-se a partir das impressões; elas são, na realidade, cópias modificadas das impressões, com o auxílio da memória e da investigação. (...) Assim, se percebemos algum tipo de relação, ela é produto do hábito e é fundamentada na crença. (...). Assim, uma idéia para a qual não há nenhuma impressão só é possível pela crença. P 37

Na moral e na política , suas propostas tinham como parâmetro o conceito de utilidade. A moralidade seria apenas o conjunto de qualidades aprovadas pela generalidade das pessoas, em função de sua utilidade. P 38

Com suas propostas, Hume responde à questão da relação entre o Ser e o Pensar de uma forma nova: estabelece, a princípio, a primazia do Ser. Mas, ao colocar que as relações entre os fatos têm por base a crença, advinha dos hábitos, e que é impossível conhecer pela demonstração e pela prova as “leis” da realidade (leis que para ele não estão na realidade e sim no sujeito), acaba por negar essa primazia. Sua posição, em última análise reforça a visão de que é o sujeito pensante que constrói a realidade, já que, por exemplo, a realidade causal não existe, é algo que existe no espírito. P 38

Kant conclui que todo conhecimento é constituído por síntese dos dados ordenados pela intuição sensível espaço-temporal, mediante as categorias apriorísticas do entendimento. Isso tem como explicação que a razão apresenta limites para o conhecimento, uma vez que nem tudo pode passar pela intuição sensível. Nesses casos, privada de qualquer ponto de apoio na experiência, a razão perde-se em contradições insolúveis. P 45

A razão pura só pode apreender os fenômenos, a aparência, e não a coisa em si. Isso porque ela tem categorias a priori que ordenam os dados da experiência. Dessa forma, o objeto do conhecimento é construído pela razão e não pode afirmar nada sobre o mundo como ele é (coisa em si), mas sim sobre as propriedades que são apreendidas e organizadas pela razão (aparência). Para Kant, o mundo é um caos desordenado; cabe à razão pura, através das categorias apriorísticas, ordená-lo. P 45

A liberdade é, então, a coisa em si, inacessível ao conhecimento, mas, postulado da razão prática. Ou, em outras palavras, a essência de todas as coisas é ser livre, o que determina que a razão prática tem primazia sobre a razão pura. Portanto, a liberdade é um conceito que não é conhecido pela razão, é postulado da razão. P 46

Para Hegel, o empirismo tem valor porque admite que o que é verdade deve estar na realidade e conhece-se pela percepção; nesse sentido, o empirismo admite o princípio de liberdade, já que o homem pode conhecer por si só. Por outro lado, critica o empirismo por negar a possibilidade de conhecer o que está além do sensível. (...). A conclusão de Hegel é que a idéia só é verdadeira se ela aparece no ser, na realidade; ao mesmo tempo, o ser, a realidade só pode ser colocada a questão da verdade por meio da idéia, da razão. Ele quer com isso eliminar essa distinção que tradicionalmente fora feita entre a idéia e o real, pois ambos seriam facetas de uma mesma unidade. P 47

....ele analisa, por exemplo, a Revolução Francesa. Segundo sua análise, em 1789 a monarquia francesa havia se tornado tão irreal, isto é, tão destituída de necessidade, tão irracional, que foi varrida pela Revolução, o que é exaltada por Hegel. O racional encontrou uma nova forma de expressão no real. O irreal era a monarquia e real, a revolução. P 48-49

Nesse sentido, é possível dizer que o real não se confunde com o existente, pois o que existe, por vezes rompe a unidade e, portanto, não é real. A superação dessa situação é possível porque a contradição entre o ser (tese) e o não ser (antítese) resolve-se no vir a ser (síntese) e esse é um movimento.... p 49

....o surgimento de algo novo não é independente de algo velho, que já existia. O pensamento tradicional via o surgimento do novo como simples oposição à destruição do velho.... p 49

Com Hegel, o movimento passa a ser entendido como algo interno, próprio do ser, já que “O ser e o nada são uma e mesma coisa”. A mudança que ocorre é a transformação de algo que é, em algo novo, por meio da negação e da superação dessa negação, ou seja, é o vir a ser que se dá através de um processo infinito. P 50

Essa visão tem como implicação que os homens que fazem a história são aqueles que dominam a Idéia (filósofos e pensadores). Nesse mesmo sentido, o Estado representa a organização racional da sociedade, ou seja, é a organização necessária em um determinado momento histórico. Entretanto, nem todo Estado existente é o necessário: ele pode ser irracional e, portanto, deve ser alterado. (...). Por isso, em cada momento histórico, cada sociedade tem o Estado que merece. Essa conclusão só é possível porque aquilo que é necessário é determinado pelo racional. P 51

Ludwuig A. Feuerbach (1804-1872), (...), em sua obra, A Essência do Cristianismo, afirma que “a natureza existe independente de toda filosofia” e que os homens são produtos da natureza; fora dela e dos próprios homens, nada existe. P 52

Dessa forma, Feuerbach rompe com o sistema hegeliano. Nega a primazia da Idéia sobre o Ser, assim como a noção de movimento implícita nesse sistema. (...) A mesmo tempo, entretanto, Feuerbach parte do materialismo, mas não o considera uma concepção geral do mundo. O materialismo é utilizado para explicar a relação do homem com a natureza e a origem do pensamento. P 52

Por outro lado, a crítica que faz à religião tradicional é no sentido de reformulá-la. O homem cria um Deus, segundo ele, como extensão de sua própria essência. Nesse sentido, esse Deus é fantasia. O que importa é o homem e a natureza. P 52

O surgimento do materialismo dialético e histórico deu-se no momento em que as ciências naturais haviam alcançado enormes êxitos e se desenvolviam num ritmo acelerado. A concepção científica havia desalojado o idealismo e a religião do terreno d s ciências naturais. P 54

A teoria evolucionista de Charles Darwin, naturalista inglês, publicada em 1859, deu uma explicação científica sobre a origem do homem e suas relações com seus antepassados animais. Darwin demonstrou que a natureza viva evolui, que o homem é um produto da natureza e o resultado de uma longa evolução da matéria viva. Suas investigações e conclusões representavam um rompimento com as doutrinas idealistas e metafísicas... p 54-55

Neste momento histórico as exigências de transformação da sociedade capitalista tornavam-se cada vez mais e as propostas de uma sociedade socialista ganhavam espaço. O Estado da Razão – fundamentado na Revolução Francesa – fracassara complemente; o contrato social de Rousseau tomara corpo na época do terror; a burguesia perdida a fé na sua habilidade política, refugiou-se, primeiro, na corrupção do Diretório e, por último, sob a tutela do despotismo napoleônico. (...). A consolidação da indústria sobre as bases capitalistas converteu a pobreza e a miséria das massas trabalhadoras em condição de vida da sociedade. P 55

Embora esses burgueses tivessem que se transformar numa espécie de funcionários públicos, de homens de confiança de toda a sociedade, sempre conservariam, frente aos operários e assalariados, uma posição autoritária e economicamente privilegiada. P 56

Os fundamentos econômicos, sociais e culturais que dão origem ao positivismo são os mesmos que geram o materialismo dialético. O momento histórico continuava sendo de grande ebulição, agora com novos ingredientes já que a burguesia tinha novas necessidades, próprias de uma classe que necessitava consolidar seu poder econômico e político e, ao mesmo tempo, combater o proletariado que já começava a ela se opor. P 57




No século XIX era necessário o aparecimento de uma ciência da sociedade, que pudesse, à semelhança das ciências naturais, ser eficaz garantindo ao mesmo tempo compreensão e controle da sociedade e das pessoas que a compunham. (...). Augusto Comte (1789-1857) [...]. Propõe uma teoria positiva, daí o nome do seu sistema Positivismo, em que se dedica à investigação dos fatos, que permitam um conhecimento utilizável baseado no empírico que leve à organização e certeza. P 58-59

Comte admite a necessidade de se melhorar a situação das classes baixas mas, sem que se destrua as barreiras de classes e sem que se perturbe a ordem econômica. As dificuldades sociais são essencialmente morais e não políticas. A ordem social se erige sob leis eternas que ninguém pode transgredir sem punição. P 59

O positivismo fundamentou epistemologicamente todas as ciências naturais e sociais, unificando os critérios metodológicos – observação, experimentação, raciocínio hipotético-dedutivo e indutivo (lógica formal), replicabilidade, previsão e controle. No entanto, tem sofrido críticas e reformulações no sentido de adequar-se às novas descobertas da física e das ciências humanas, tais como de solucionar os problemas lógicos decorrentes da linguagem, os problemas de observação, verificabilidade e experimentação dos fenômenos humanos e sociais, bem como as interferências do cientista no seu objeto de estudo. Mas a essência de suas propostas não tem se modificado. P 61

A partir da área da Medicina e da Saúde, Freud (1856-1939) e Jung (1875-1961), apoiados em questões práticas de como reintegrar indivíduos com “doenças nervosas” à sociedade, passam a estudar os processos simbólicos e a linguagem, buscando possíveis alternativas de tratamento (...). Estes pensadores, ao contrário de Wundt, não se encontravam nas universidades e presos à pesquisa acadêmica, mas mantinham suas atividades voltadas para o contato direto com as pessoas na clínica ou nos hospitais. P 92

Ao analisarem a lógica interna da fala dos pacientes, eles notaram que nem sempre havia uma relação direta com a experiência vivida. Porém, o que era relevante para a teoria não dizia respeito à veracidade dos fatos, mas à coerência interna do discurso interno do paciente. Neste sentido, eles puderam verificar que o discurso pode se referir à experiência vivida na realidade concreta ou a um desejo de passar por estas experiências. Foi a utilização sistemática do método comparativo de análise do discurso dos pacientes que levou Freud e Jung a proporem outros objetos de estudo para a psicologia: o inconsciente e o simbolismo da vida psíquica. P 93